ESTE NÃO É UM TEXTO DE CRÍTICA A NINGUÉM! É APENAS O COMPARTILHAR DE SENTIMENTOS SOBRE A VIDA.
A maternidade nunca foi uma questão real para mim. De fato, nunca pertenceu ao meu desejo, no sentido psicanalítico mesmo.
Mas, por favor, NÃO ME CONFUNDAM com essas pessoas CHILD FREE! JAMAIS!!!!!!!!!
Esse grupo pra mim é abominável, porque é simplesmente mais um grupo determinado a oprimir outro que historicamente sempre esteve em desvantagem.
CHILD FREE NÃO É SOBRE MATERNIDADE.
CHILD FREE É SOBRE DESQUALIFICAÇÃO
Feito o esclarecimento anterior, mesmo não tendo o desejo de ser mãe, a maternidade é uma questão para mim. E para todas as mulheres.
Por isso, às vezes me pego a pensar: ´E se eu fosse mãe?´
Na maioria das vezes paro para pensar nisso quando leio algo do tipo ´Ser mãe de menina é ...´ ou ´Ser mãe de menino é ...´, seguido de afirmações doces ou engraçadas.
Sempre que leio tais frases sinto um arrepio, porque não vejo nada de doce ou engraçado no mundo em que vivo e, consequentement
Eu sempre penso, ´Se eu fosse mãe de menina ...´:
Eu sentiria MUITO MEDO, um medo GIGANTE, pois o mundo é mau, especialmente com as mulheres, principalmente com as mulheres negras;
Eu temeria pela sua saúde, pois o atendimento de saúde à população negra costuma ser negligenciado, mesmo quando pagamos caro por ele;
Eu temeria o contato dela com todo e qualquer ser do sexo masculino (criança, adolescente, adulto jovem, de meia idade ou idoso), incluindo o pai e qualquer parente, por mais próximo e íntimo que fosse. Sim, eu temeria. Não posso vir aqui compartilhar reflexões e angústias de maneira cínica ou hipócrita;
Eu temeria pela sua escolarização. Por todos os apelidos, maus - tratos, abuso emocional, conflito de identidade, dúvidas, solidão e incompreensão. Pelo menos 12 anos de angústia, cansaço, dor e luta. Com sorte, uma professora negra e consciente aqui, um professor crítico e empático ali. Ah, e a decepção de descobrir que aqueles professores que se fazem de combativos e militantes acham que questões de raça e gênero são menores, porque, segundo eles, tiram o foco da questão de classe;
Eu temeria que ela fosse engolida pelos padrões estéticos bombardeados pela mídia e se desconectasse dela mesma, de buscar saber de si, cuidar de si e não entendesse que, de verdade, as pessoas lindas são as que veem o mundo para além do seus próprios umbigos e que acreditam em igualdade, afeto amoroso, paz, empatia e solidariedade;
Eu temeria a objetificação do seu corpo, e temeria mais ainda não conseguir tratar desse assunto de maneira a permitir que se sentisse livre e sem medo do seu próprio corpo e do seu existir;
Eu a colocaria para fazer artes marciais desde bem pequena. Defesa pessoal é item de primeira necessidade para qualquer mulher;
Eu a estimularia a brincar com todo tipo de brinquedo: de fogão e panela (afinal de contas todo mundo deveria cozinhar) a carrinho de rolimã, e com todo tipo de pessoa que a respeitasse e lhe tivesse afeto amoroso;
Eu a estimularia a conviver e respeitar todo tipo de animal, humano ou não - humano, compreendendo que não se pode tomar ou manipular (em todos os sentidos possíveis) a vida de outro ser;
Eu tentaria demonstrar que a espiritualidade
Eu a ensinaria a amar e não ter vergonha do avô carteiro, da avó técnica de enfermagem, da bisa trabalhadora doméstica que aprendeu a ler adulta, no Mobral, da outra bisa que, entre tantas atividades, foi merendeira de escola pública, da tia que cursou Relações Internacionais,
Antes de ler qualquer conto de fadas, contaria nossas histórias. A história da bisa que fugiu da violência doméstica, levando as duas filhas e nenhum documento além das Certidão de Batismo, voltando a usar o nome de solteira e renomeando as filhas da mesma forma;
Contaria do avô, que chegou a servir o Exército sem saber ler e escrever e, após sair de lá, concluiu o ensino fundamental e o ensino médio em 5 anos;
São tantas histórias que demoraria anos pra terminar o serviço. Também lhe ensinaria que a história não é linear, que a vida é um vai e vem embolado, mas que pra alguns é mais difícil: mulheres, negras/os, indígenas, ciganos/as, homossexuais, transgêneros, pobres, moradores de favela e bairros populares, pequenos trabalhadores rurais, animais não - humanos, migrantes, refugiados e tantos outros de quem me lembrasse;
Eu me disporia a aprender com ela e a ser com ela.
E aí fico pensando na tal frase ´Ser mãe de menina é...` e só consigo imaginar que se fosse mãe eu diria que:
´Ser mãe de menina é ter medo sempre, acordar todos os dias e se vestir de coragem`.
*Essa postagem é para as amigas/