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Larissa Zeggio está a sentir-se zangada.

IMPORTANTE - Não confundam BOTECOTERAPIA com Psicologia científica. Sobre a tragédia da Escola de Goiânia. [atualização em 23/out no final do post]
Análises superficiais de tragédias podem ser tão danosas quanto as próprias tragédias.
Minha timeline explodiu com a notícia "Não foi Bullying" escrita por um SUPOSTO psicoterapeuta chamado Jordam Campos. [me recuso a colocar a "notícia" com o texto do autor aqui e dar mais ibope por um sujeito sem quaisquer condições técnicas ou éticas de analisar a situação].

Antes de tudo, vamos esclarecer: o autor NÃO É PSICÓLOGO, se auto intitula FILÓSOFO, iridologista e psicoterapeuta que trabalha com Terapia de Regressão, PNL e outras pseudociências. (nota: impossível saber se mesmo filósofo ele é, pois não há Currículo Lattes em seu nome)! Ressalto, não tem formação em psicologia clínica.

AINDA que o individuo fosse psicólogo clínico ou psiquiatra, seria um desserviço e uma questão ética séria fazer a análise do caso -- de um estudante adolescente que atirou nos colegas de sala em Goiânia essa semana -- a partir de recortes de notícias publicadas no jornal.

Isso é um disparate!

Sem avaliar pessoalmente o adolescente, analisar criteriosamente a família, escola, colegas e demais histórico, fazer qualquer comentário (que mesmo assim seria apenas uma hipótese) se valendo de status profissional é absurdo e pode ser muito perigoso.

Perigoso porque muitas pessoas já acreditam que bullying é frescura e que não impacta na saúde mental das crianças e adolescentes. Menos ainda acreditam que o bullying crônico possa levar a condições severas de alterações emocionais (depressão, ansiedade, etc) e contribuir para a apresentação de um padrão de comportamento prejudicial (agressividade, suicídio, etc).

Colocar a culpa no próprio adolescente (e em sua família) sem ter acesso às informações é perpetuar um ciclo de exclusão e sofrimento que não irá reduzir os diversos problemas emocionais que temos que acolher constantemente na clínica fruto do Bullying.

Provavelmente, assim como em qualquer situação extrema, diversos fatores podem ter contribuído concomitantemente para a tragédia na escola de Goiânia: tanto fatores inatos quanto fatores ambientais. Fatores como as habilidades sociais do adolescente, sua saúde mental prévia, possíveis fatores genéticos, possíveis relações familiares, possíveis relações com os pares, alterações neurológicas, dentre outros, devem ter tido seu peso para o terrível desfecho visto na escola.

O que não podemos, de forma alguma, é "analisar" de forma displicente, sem acesso às informações necessárias, e ainda alardear um veredicto se valendo de uma pretensa posição de autoridade como esse Jordan resolveu fazer.

Por favor, não confundam Botecoterapia com Psicologia Científica. A população já é avessa a psicologia e psicoterapia por diversas razões, mas associar psicoterapia com porcaria e manchetes sensacionalistas acaba gerando um efeito ainda pior.

By Larissa Zeggio 22/10/2017

ps: O uso do termo "psicoterapeuta" gera bastante confusão na população. Há uma ligação automática da palavra "psicoterapeuta" e "psicoterapia" com o profissional formado em psicologia, embora outros profissionais que não tenham formação em psicologia se utilizem desses termos para suas práticas terapêuticas baseadas em outras áreas (muitas vezes não científicas). É importante sempre buscar as credenciais do profissional para se assegurar de sua formação e embasamento técnico científico na área. No caso em questão o autor do texto (Jordan) não disse que era psicólogo, mas psicoterapeuta. Em vista da compreensão de psicoterapia da população, e do uso da autoridade profissional de psicoterapeuta para justificar sua posição no caso, foi importante destacar que o autor do texto não é psicólogo clínico e, ainda que fosse, sua conduta foi leviana.

ATULIZAÇÃO EM 23 DE OUTUBRO:

PARA TODOS, aproveito a resposta que escrevi para uma pessoa que comentou no texto e esclareço alguns pontos da discussão abaixo a quem interessar:
É importante ressaltar alguns pontos nessa história: 1- O autor se vale da condição de "psicoterapeuta" para "analisar" o caso. Dessa forma ele comete dois erros simultâneos:
a- usa a falácia da autoridade para sustentar sua "análise" e
b- fere princípios éticos profissionais ao expor publicamente sua análise, sobretudo quando feita de forma taxativa como o fez (imagem com letras garrafais dizendo "não foi bullying");
2- Ele foi leviano e inconsequente no texto. Em certa medida os jornalistas também foram ao afirmarem que a causa da tragédia ERA o bullying (o que poderíamos relevar minimamente, pois jornalistas não são profissionais da saúde), mas isso é descabido de alguém que se diz um profissional de saúde que está se pautando em informações parciais disponibilizadas pela mídia e que nunca teve contato com o adolescente em questão, a escola, os profissionais envolvidos no caso ou a família e colegas do adolescente.
3- Não acho que apenas psicólogos (ou psiquiatras) devem discutir sobre casos de saúde mental, entretanto, a formação profissional é relevante nessa discussão. O autor trabalha com uma série de pseudociências e, do ponto de vista científico, tem tanto argumento quanto um leigo para discutir.
4- A população geral ainda confunde "psicoterapeuta" com "psicólogo" (parte é responsabilidade do CFP, fraco nas delimitações do campo de atuação do psicólogo no país) e é relevante esclarecer à população a diferença entre ciência e pseudociência. Para mim, essa é uma responsabilidade minha profissional como psicóloga e cientista.
5- Qualquer aluno iniciante da área de saúde mental sabe que comportamentos desviantes são fruto de uma somatória de fatores (ambientais, genéticos e interacionais entre ambos) e, sendo assim, NUNCA seria possível afirmar nesse caso que FOI OU NÃO FOI o bullying, visto que ele é apenas um dos componentes nessa equação (e o peso dele no desfecho só seria possível analisar com muitos mais dados sobre o caso).
6- Por fim, o autor faz um JULGAMENTO MORAL sobre se o adolescente sofreu ou não bullying e sobre sua família, inclusive afirmando que alguns dias de alguém xingando o adolescente de "fedorento" não teriam quaisquer efeitos e não caracterizariam bullying. Isso, além de patético, é extremamente inconsequente. Tanto que no segundo texto o autor resolve tentar tentar "consertar" parte das bobagens que escreveu sobre isso falando que o bullying poderia ter sido um gatilho ao fato. Novamente um discurso de uma fragilidade patética, de alguém que não sabe nem o que ele mesmo considera como bullying, e não se apoia em nenhum referencial para suas análises e desanálises. Sim, gatilho seria a consideração que um aluno meu levantaria como primeira HIPÓTESE em qualquer aula de graduação. Mas meu aluno saberia como escrever sobre isso -- e SE seria adequado escrever sobre isso. // Meu post foi sobre essas questões.

#NãoàBotecoTerapia
#PsicologiaCientífica
#MaisÉticaPorFavor

22 de outubro de 2017 às 19:37 ·
Público