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O Mal Menor
Querem-nos convencer da inevitabilidade de escolhermos o mal menor como oposição a um mal maior. Querem-nos convencer de que já não há um bem maior ao qual nos possamos associar. Querem-nos convencer que os fins justificam os meios. Querem-nos convencer que a mediocridade em que estamos atolados é uma inevitabilidade apenas estancável com a escolha do menos mau. O bem maior deixou de fazer parte da equação.
Mas eu resisto! Custa-me aceitar todas essas inevitabilidades. Custa-me tolerar a pequena e a grande corrupção como se fosse o mal menor que nos possibilita viver em sociedade. Não espero lençóis brancos e imaculados, a imperfeição, o erro, o engano, fazem parte da nossa natureza. Mas também faz parte dela querer melhor, tendo como horizonte uma visão pristina. Ter como horizonte a esperança. Se nos conformamos ao mal menor. Se nos resguardamos na mediocridade, com medo do mal maior. Se já não há uma centelha acesa por um bem maior que nos sirva de orientação, então o que nos resta?
A humanidade é claustrofóbica. A humanidade precisa de horizontes amplos. A humanidade desumaniza-se quando enclausurada. A humanidade desorienta-se e torna-se irracional quando lhe falta a clarividência que só algo maior lhe pode dar. São muitas os exemplos da nossa história recente em que nos conduzimos a nos próprios para o abismo. São muitos os exemplos de obscurantismo no caminho que temos trilhado. Tenhamos memória deles. Saibamos não repetir essas pisadas.
Vivemos momentos perigosos que se vão entranhando em nós através da aceitação do mal menor. Depois das euforias dos inícios de século e de milénio, abate-se sobre nós a típica desilusão pelos sonhos anunciados não se estarem a cumprir. Ao gorar de expetativas elevadas seguem-se os medos, as culpas, os dedos acusadores, as turbas cegas. Segue-se a aceitação de meios menos próprios para atingir fins, muitas vezes ilusórios, que desejamos. Segue-se a desesperança por um bem maior, o medo do mal maior e a aceitação do mal menor. Seguem-se os perigos que pululam nos retrocessos civilizacionais. Segue-se a queda no obscurantismo.
Mas não nos podemos resignar a este caminho. Precisamos de luz à nossa frente. Precisamos de um horizonte de esperança. Precisamos de um bem maior pelo qual orientar a nossa vida. Não vos estou a falar de predestinados nem de causas utópicas. Estou a falar de uma sociedade evoluída, que respeita as diferenças, que saiba viver com elas, que não esteja fechada pelo medo, que seja feliz. Não parece difícil, mas é talvez o maior desafio de sempre da humanidade.
Hélder Spínola
in Revista Saber, novembro de 2018

23 de novembro de 2018 às 14:32 ·
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