Queres iniciar sessão ou aderir ao Facebook? Desafios para a educação: papel da cultura como instrumento de inovação 18 de dezembro de 2019 · Público (texto pedido pelo Instituto Piaget para livro que será publicado sobre Educação, Museus e Inovação) Desafios para a educação: papel da cultura como instrumento de inovação Sobre desafios Falar de algumas das características deste século que vivemos é reafirmar dados evidenciados por muitos. Vivemos uma revolução tecnológica, marcada sobretudo pela celeridade das mudanças e por uma evolução da inteligência artificial que acompanhamos com dificuldade. Vivemos, de forma particularmente preocupante, o drama das alterações climáticas como alerta para a necessidade de uma intervenção urgente nas políticas ambientais. Vivemos uma época em que a informação nunca foi tão facilmente acessível, o que contrasta com uma simultânea maior permeabilidade à manipulação da vontade e do conhecimento através da disseminação de informação falsa ou enviesada. Assistimos à emergência de movimentos populistas e a radicalismos que toldam o discernimento e põem a causa a qualidade do debate democrático. Em todo este quadro, a definição de política educativa passa, cada vez mais, por assumir firmemente opções claras sobre a missão da educação e a forma como esta se pode tornar instrumento para fazer face a antigos e novos desafios. Inovar, em educação, não significa necessariamente fazer coisas novas. Significa sim colocar os recursos disponíveis e organizá-los de forma a conseguir responder ao que não está ainda alcançado ou àquilo para que não estávamos conscientes de enfrentar como realidade. É neste contexto que me proponho, neste breve texto, relevar o papel da educação cultural como instrumento de inovação e ferramenta para a introdução de respostas a velhos e novos desafios que enfrentamos. Há termos que, parecendo consensuais, não significam necessariamente o mesmo para todos. “Sucesso escolar” é uma dessas expressões. Para alguns, resume-se a uma estatística ou a um mero resultado final. Assumimos aqui, de forma clara, em linha com o que tem sido o esforço da política educativa portuguesa das últimas décadas, que sucesso escolar significa adquirir as aprendizagens e desenvolver as competências necessárias para uma ação eficaz e digna nas variadas esferas em que o jovem que sai do Ensino Secundário se vai mover: na sua vida académica, profissional e no exercício da sua cidadania. Sabemos que há ainda muitos alunos que não aprendem ou não aprendem com qualidade. As razões para que tal aconteça são muitas, desde infraestruturais, contextuais, envolvendo barreiras sociais, emocionais e atitudinais, até ao modelo educativo, desenhado tradicionalmente para uma resposta eficaz aos mais favorecidos. Nesta visão da missão da educação, ter sucesso significará, pois, aprender o que as diferentes disciplinas fornecem para a consolidação de um sólido corpo de conhecimento. Sólido porque não se evapora no momento seguinte a uma testagem e porque robustece e capacita o indivíduo. Quando falamos na avalanche de informação em que vivemos, percebemos que talvez nunca como hoje se tenha tornado tão relevante capacitar os alunos para analisar fontes, pensar criticamente, aprender a questionar, a distinguir factos de opiniões. Este é um trabalho difícil, mas fundamental. Acresce à dificuldade deste trabalho que sabemos que, em todo o mundo e de forma mais acentuada em Portugal e noutros países, o sucesso escolar está fortemente associado à condição socioeconómica das famílias ou contexto de origem dos alunos. São os mais desprotegidos socialmente que têm mais dificuldade em aprender. Este é um problema de enorme complexidade, que convoca todos os que agem em políticas promotoras de bem-estar – segurança social, saúde, educação, justiça, emprego. Mas é, obviamente, também uma questão da escola. Se o acesso a saúde garante melhor desenvolvimento, também o acesso a educação e o compromisso com uma educação que responde a todos é garantia de mobilidade social. Contrariar o aparente determinismo da pobreza não é impossível, porque há países, territórios, escolas e professores que o conseguem fazer com grande sucesso, garantindo o envolvimento de alunos e as suas aprendizagens a tantos que, à partida, achavam que a educação não era para eles e optavam por assumir atitudes negativas em relação à instituição, aos seus agentes e ao próprio conhecimento. Já foi referido o desafio crucial da capacitação para uma cidadania ativa. A inclusão aludida no parágrafo anterior é crítica para podermos falar de cidadania. São os que não se sentem pertença da comunidade que pior contribuem para o equilíbrio de que as sociedades saudáveis precisam. São os que não têm informação de qualidade que mais acreditam em dados inventados, vendo a sua capacidade de escolha controlada sem disso se aperceberem. São os que não dominam a relação com a tecnologia que mais veem o seu gosto, vontade e poder de escolha controlado por algoritmos. Aceites estes três desafios – sucesso, inclusão e cidadania – como as opções e metas sobre as quais incide um conjunto de políticas educativas, reflitamos sobre o contributo da educação cultural, em particular do papel dos Museus como instrumento de resposta a estes desafios. Centrar-me-ei em três dimensões que me parecem absolutamente essenciais: o valor do tempo e a utilidade da arte, o papel da memória, o património local e global. O valor do tempo e a utilidade da arte Uma das consequências nem sempre saudáveis da acelerada evolução tecnológica é a forma como a nossa relação com o tempo se tem alterado. Em poucas décadas, passamos do tempo necessário para datilografar um documento para a espera paciente pela impressora de jato de tinta, precisando ainda de destacar o papel furado que saía da impressora, para a irritação mais profunda quando o documento não sai da impressora a laser em menos de três ou quatro minutos. Passamos da planificação da carta que íamos escrever à expectativa da reação imediata quando enviamos um email ou um SMS. Nunca o homem viveu tanto tempo, com o progressivo aumento da esperança de vida, nunca tivemos a vida tão facilitada e, no entanto, nunca nos queixamos tanto da falta de tempo. O imediatismo leva-nos a querermos tudo fazer e rapidamente, numa angústia por nunca termos cumprido o próximo prazo, realizado a próxima etapa. É aqui que entram a educação artística e cultural quando bem trabalhadas. Ao introduzir a Sensibilidade Estética e Artística como uma competência fundamental a desenvolver, o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória prevê que se cultive o gosto, a capacidade de apreciar uma obra de arte, de se transportar para outros lugares através da fruição do que é belo. Este trabalho permite construir uma relação diferente com o tempo e com o saber. Ouvir um concerto, ler uma boa obra de literatura, visitar um museu implicam tempo para a fruição e a valorização desse tempo. Isto significa que não estamos no plano da leitura obrigatória, da visita porque tem de ser ou da imposição do gosto de uns sobre o gosto de outros. É fundamental que haja tempo para entender o pormenor, para saborear a palavra e ter a capacidade de “desligar”. Não precisamos de ver tudo num museu. Precisamos de ir ver aquela peça e interpretá-la, para que a nossa vontade de regressar seja aguçada. Precisamos de perceber que o tempo de contemplação não é tempo perdido e que não deixamos nada para trás porque progredimos mais. Obviamente, isto implica intencionalidade educativa no planeamento de cada atividade. A arte tem este papel fundamental na construção do indivíduo: não nos dá outra coisa que não seja aprender a lidar com a emoção, a capacidade de parar, de nos inquietar e constatar que há múltiplas interpretações. Isto é a verdadeira utilidade da aparente inutilidade da arte. É porta para o sucesso, porque permite analisar pormenores, interpretar, tentar perceber o que nem sempre é facilmente compreensível. É porta para a inclusão, porque constrói bem-estar, porque permite trazer serenidade e porque permite a expressão de outras formas de ver o mundo, não estando condenados à inevitabilidade de uma forma de viver em sociedade. É porta para a cidadania, porque a valorização do que nos faz sentir bem implica uma relação com o bem comum. Na sala de espetáculos, no recanto do museu, partilhamos com os outros que lá estão a vontade de apreciar o que é belo. Ganhamos uma capacidade de valorizar o bem-estar coletivo e percebemos que o produto artístico resulta sempre da combinação de várias vontades. É também através da arte que conseguimos inquietar e desenvolver consciência no outro de problemas que, aparentemente não o afetam, mas que também dependem da sua ação. Quantas vezes um quadro, uma fotografia, uma peça de teatro ou uma música nos tornam sensíveis para causas para as quais não tínhamos despertado e são o mote para nos informarmos e agirmos? O papel da memória Cultura é memória. Não a memória do saber de cor, mas a memória trazida pelo entendimento de que agir sobre o presente não é conseguido sem se conhecer e interpretar o passado. O museu é o repositório da memória coletiva. É a mostra e a tangibilidade das vidas anteriores, dos movimentos culturais, das trajetórias de pensamento que nos levaram onde estamos. No museu revivemos vidas que não vivemos e percebemos que o que está descrito no manual escolar afinal existiu mesmo. O imediatismo que a tecnologia nos traz faz-nos viver muito o presente e a incapacidade de o questionar à luz de conhecimento adquirido. Este é um dos papeis principais da educação cultural e da necessidade de sair da sala de aula e trabalhar concretamente junto dos agentes culturais. A história torna-se memória presente e ativada. Relacionamos melhor as opções presentes com as consequências de opções idênticas no passado. Percebemos que a desumanização do refugiado de hoje não é diferente da desumanização da vítima do holocausto no passado. Percebemos que, quando desumanizamos o outro transformando-o numa estatística ou numa notícia, é a nós próprios que nos desumanizamos, porque perdemos a empatia que permite a boa decisão. A educação cultural é, pois, uma forma de preservação da nossa própria humanidade. E, por isso, a cultura como valorização da memória é sucesso, inclusão e cidadania. Sucesso porque aprendemos factos, vivências, interpretações, correlações e causalidades. Inclusão porque através da memória, criamos novas empatias e sensibilidades e aprendemos que o problema do outro não é só dele, mas de todos nós. Cidadania porque não decidimos apenas em função do retorno esperado, mas sim em função da preservação de um património de humanidade de que somos os únicos guardiões. Não cultivar a educação cultural é, pois, alienar a capacidade de agir informadamente, não apenas porque se perde o conhecimento, mas sobretudo porque não se experiencia, não se relativiza e não se interpreta. O património local e global. Sair da escola e ir ao museu é contextualizar a escola e a aprendizagem para lá das paredes da sala de aula. Referi a desumanização inerente a uma educação que despreza a vivência cultural, para além do saber cultural. Uma educação centrada na leitura de manuais iguais para todos, sem debate, em que o aluno se limita a reproduzir aquilo que ouviu é também um instrumento de desumanização. Se o trabalho da escola fosse esse, as salas de aula podiam não ter janelas. Porque seria indiferente o contexto da escola. Quando falamos da memória e da cultura, falamos do sentimento de pertença. A memória de nós passa necessariamente por uma relação com a nossa terra, os nossos referentes, os cheiros, os sabores, as músicas e sons. Entendê-los é também entendermos o que somos, o que queremos ser e o que não estamos condenados a ser. Por isso, as janelas têm de se abrir, para que se possa saltar e relacionar o saber do manual com a realidade que experimentamos tomar. A árvore da minha rua é fonte de compreensão da descrição das folhas que li no livro. O museu com o património local é a expressão da história da terra, dos que lá viveram e dos que contribuíram para o legado atual. A relação com o património local é um instrumento para o desenvolvimento de uma pertença que potencia a inclusão. Mais facilmente chegamos ao que não quer estar na escola se ele sentir que a escola é parte importante de um contexto maior em que se move. É mais fácil entender desafios globais quando se estabelece uma relação primeira com o património local. O problema global da poluição é vivido na minha aldeia em que dimensão? Os problemas globais de saúde que leio nas estatísticas refletem-se como no centro de saúde da minha cidade? Esta contextualização do saber desperta curiosidade, condição essencial para o sucesso. Saber que há um património local alarga horizontes e permite uma expansão até à perceção de que há um património global por cuja preservação também somos responsáveis. Isto é cidadania. E por tudo isto, arte e cultura são condições indispensáveis para que a aprendizagem tenha sentido, se consolide, chegue a todos e gere ação. |